Música tem via verde no Stop

Um grupo de turistas caminha pela Rua do Heroísmo, na cidade do Porto, liderado pelo guia que, subitamente, decide interromper a marcha. Param junto à entrada de um antigo centro comercial.

A fachada, que ainda guarda marcas de dois incêndios, ambos em 2012, é antiga mas colorida. O guia turístico, falando em inglês, dá algumas informações acerca do espaço. Os turistas ouvem-no e depois entram.

É o centro comercial Stop, construído na década de 80. Em tempos, teve em funcionamento mais de uma centena de lojas, duas salas de cinema e uma danceteria, distribuídas pelos três pisos do edifício. Actualmente, tudo isso são memórias distantes. Mas, então, qual poderá ser o interesse turístico deste espaço?

O elevador está inutilizável. As escadas rolantes estão paradas e através delas descem alguns homens, visivelmente cansados, carregando cadeiras, ventoinhas e outros objectos. Alguém parece estar de saída.

No terceiro piso encontramos o motivo destas transladações. Esses homens entram e saem carregados do interior da dancetaria ‘Óbaile’. Está para fechar, tal como nos adianta o proprietário do estabelecimento, Fernando Esteves. “Estive aqui muito pouco tempo , porque infelizmente a casa foi assaltada três vezes”, justifica o empresário enquanto mostra a porta arrombada e alguns sinais de infiltrações de água no pavimento.

Entre as diversas queixas, o empresário aponta culpas à administração do centro comercial, ao qual se refere como “Tarrafal”. Neste estabelecimento trabalham cinco funcionários, entretanto já dispensados. “Hei-de chamar cá a ASAE”, remata consternado Fernando Esteves.

Em breve o Stop deixará, assim, de ser um local onde se pode dançar ao som dos mais variados sucessos dos anos 90, mas nem por isso deixará de ser uma incubadora para todas as bandas que o utilizam como espaço de composição e produção.

Ao caminhar pelos corredores deste centro comercial, com as paredes adornadas com graffitis e panfletos, é possível sentir  a voz deste espaço. É quase indescritível. As melodias provenientes das várias salas de ensaio, outrora lojas  —  alugadas desde 80 a 165 euros por mês — , fundem-se e dão origem a uma sinfonia muito peculiar. É o resultado da confluência dos mais variados estilos musicais, desde o funk até ao heavy metal.

É nos corredores do terceiro piso que surge repentinamente Tozé Santos, antigo vocalista dos Per7ume e do projecto musical Zeca Sempre, presença habitual no Stop , onde possui há cerca de seis meses um estúdio de gravações. Acerca da diversidade musical que encontra neste centro comercial o seu ecossistema, o cantor considera que “trabalhar com outras bandas e com outros músicos confere outro tipo de experiência”, enaltecendo a “força ligada ao espectro artístico” que se gerou neste antigo centro comercial.

Em estúdio estão hoje os ‘Clepsidra’, uma banda de rock alternativo, formada em 2011 e proveniente de Santa Maria da Feira, mas que tem no Stop o seu quartel-general. Estão a gravar  o seu primeiro álbum, neste momento em fase de mistura e que deverá sair dentro de um mês. A meio da conversa, Francisco Figueiredo, baixista, explica que “durante este tempo a banda esteve em fase de laboratório, à procura do seu ADN e agora está disponível para avançar ”.

‘Labirinto’ é uma das músicas que já pode ser ouvida na internet e possui uma sonoridade que remete, em alguns aspecto, para bandas como os Ornatos Violeta ou os Radiohead. Acerca do álbum de estreia, Frankie, o guitarrista da banda, adianta que ele reflecte “duas fases da banda”, uma “mais simples, mais directa” e outra, já posterior, “mais elaborada”.

Descendo as escadas, encontramos no segundo piso um outro estúdio de produção, o Promised Land. Tiago ‘Pintus’, baterista e produtor de 32 anos, abre-nos as portas do estúdio, onde se encontra Eden Lewis II, a ensaiar algumas das músicas do seu projecto musical com nome homónimo, intercaladas com alguns covers.

Este é um projecto que nasceu em 2014 e que alia vários estilos, como a soul, o hip-hop, o jazz, o RnB e o rock n’ roll. Enquanto ouvimos algumas das faixas que constam do já editado ‘Momma Mary EP’ – composto por quatro músicas que remanesceram de todas aquelas que o artista compôs no último ano -, Ricardo Sousa, teclista, enaltece que “foi o ‘Ed’ que fez tudo”. Acerca do Stop, ‘Pintus’, que montou este estúdio em 2011, considera este centro comercial “a verdadeira casa da música”.

Esta expressão é, aliás, recorrente entre os músicos que aqui ensaiam. Para Zé Manel, vocalista e guitarrista da banda The Fines, que lançou em Abril o álbum ‘Greatest Tits’  —  porque “o pessoal gosta é de mamas”, como explica o próprio  —  os músicos do Stop são “uma grande família disfuncional”, equiparando este icónico espaço a “um bicho com vida”.

Acerca da banda, pode dizer-se que o hard rock traduz-se não só nas músicas da banda, mas também no próprio modo de estar dos seus integrantes. Entre um cigarro e um favaíto, Zé Manel conclui:

“Isto é um sítio mesmo estranho. Tem cervejaria, tem costureira… Não sei se tem funerária, mas podia ter, porque afinal de contas vamos todos morrer.”

Não. Realmente não tem agência funerária. Mas a existência de um café, o ‘Vitamina’ — ponto de encontro para quase todos os músicos que aqui ensaiam –, assim como de uma loja de costura confirmam-se. “Eles gostam de mim e eu deles”, conta Margarida Viana, costureira de 67 anos, acerca do seu convívio com os músicos, que também são seus clientes. “Sempre que precisam que lhes faça alguma coisa, vêm cá. São sempre atenciosos!”, destaca ainda.

Rui ‘Vitamina’, proprietário do café, afirma que o convívio que se gera faz com que o seu estabelecimento mais pareça “uma associação de músicos”. E é realmente essa a impressão que fica. Do café e de todo o centro comercial, onde todos se unem por um único objectivo: a música, que encontra neste antigo centro comercial uma casa privilegiada. Exemplo disso foi o projecto STOPestra, iniciativa que em 2010 juntou dezenas de músicos que ensaiavam no Stop para formar uma orquestra que não pretendia interpretar partituras clássicas.

Junto à porta principal, a carrinha das mudanças arranca. Os elevadores e as escadas rolantes voltam subitamente a funcionar. Carlos Freire, de 49 anos, responsável pela segurança do espaço, explica-nos que o motivo dessa interrupção no serviço se prendeu com as desavenças entre a administração e o proprietário da danceteria. “Não pagou um cêntimo enquanto cá esteve”, garante o segurança, que nega ainda a existência dos referidos assaltos.

Alheio a estas intrigas e ao repentino funcionamento dos métodos electrónicos de ascensão, encontra-se o percussionista David Lacerda, sentado nas escadas a sós com o seu tambor. Pelos corredores, a batida alastra-se e bem que poderia ser considerada o batimento cardíaco deste espaço, o Stop, que nunca pára. Que nunca dorme. Porque aqui a música tem sempre luz verde.

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